Em Minas : Iepha entrevista Ângelo Oswaldo

foto: Izabel Chumbinho – Iepha/MG

Apaixonado pela cultura e por Ouro Preto desde sempre, Ângelo Oswaldo de Araújo Santos nasceu em Belo Horizonte, em 7 de dezembro de 1947. Advogado, jornalista e escritor, foi eleito três vezes prefeito de Ouro Preto. Foi secretário de Estado da Cultura de Minas Gerais, chefe de Gabinete do Ministério da Cultura e presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Exerceu, interinamente, o cargo de ministro da Cultura do Brasil.

É membro da Academia Mineira de Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Recebeu a Légion d’Honneur, da França, a Ordem de Isabel a Católica, da Espanha, a Ordem do Infante Dom Henrique, de Portugal, e a Ordem de Rio Branco, do Brasil.

Nesta entrevista ao Iepha, Ângelo Oswaldo fala sobre os desafios de gerir uma cidade como Ouro Preto, conciliando preservação e qualidade de vida da população, além de cultura, é claro.
O senhor sempre teve uma ligação com a área da cultura. Qual o panorama que o senhor faz sobre a produção cultural de Minas Gerais?

A produção cultural mineira é rica e variada, desde os primórdios, nas bateias do ouro. Porém, há necessidade de projeção, valorização, comunicação e acesso. Ficamos ainda limitados às regiões, até em termos gerais do Estado falta articulação. Esse é um dos problemas decorrentes da extensão de Minas Gerais, da fragmentação regional e da falta de integração. No contexto nacional, precisamos ter mais agressividade na conquista de espaço para essa produção. É problema antigo, que se agrava.

No dia 31 de dezembro, o senhor encerrou seu terceiro mandato à frente da Prefeitura Municipal de Ouro Preto. Quais os principais desafios da administração de uma cidade reconhecida pela Unesco como patrimônio da humanidade e principal destino turístico de Minas Gerais?

Encerro com alegria os oito anos de dois mandatos consecutivos. O saldo é bastante positivo. Ouro Preto estava mergulhada em crise profunda, quando recebemos a Prefeitura, em 2005, até com a ameaça de perda do título de patrimônio mundial. Para se ter uma ideia do impasse, basta lembrar que o hospital local (o primeiro de Minas, fundado em 1735) estava fechado e os ouro-pretanos nasciam em outras cidades.

São centenas de intervenções que mudaram para melhor o estado de proteção e conservação do patrimônio urbano e edificado, tanto que recebemos o prêmio nacional Rodrigo Melo Franco de Andrade, de 2011, pelo “melhor modelo de gestão de cidade histórica no Brasil”. Houve avanços na saúde, educação e infraestrutura. O clima é de paz e entusiasmo. Ouro Preto voltou a ocupar a posição que deve ser sua no mapa das cidades históricas.

Sua primeira gestão à frente da Prefeitura de Ouro Preto foi na década de 1990 e as seguintes já no século XXI. Quais as principais diferenças entre os períodos o senhor percebe em relação à questão da preservação cultural?

Minha primeira gestão foi marcada pela perda de receita provocada pela chamada Lei Robin Hood e pela falta de apoio federal e estadual. O presidente Itamar Franco destinou recursos e estimulou iniciativas marcantes nas cidades históricas, mas seu sucessor em Brasília e os governadores de Minas da época não tiveram atitudes afirmativas. Mesmo assim, consegui elaborar o plano diretor e direcionar Ouro Preto no sentido do compromisso com o patrimônio cultural, o turismo, a condição de cidade universitária, as demandas do meio ambiente e uma expansão industrial responsável e compatível.

Agora, no século XXI, contei com o apoio do governo federal em programas de grande relevância e os resultados aí estão. O governo entendeu, finalmente, que não se trata apenas do restauro de monumentos, mas da ação efetiva no espaço urbano das cidades detentoras de grandes acervos. Um conjunto habitacional é, muitas vezes, decisivo para o destino do acervo histórico a se salvaguardar.

Qual o recado que o senhor deixa para os prefeitos eleitos que assumirão em 2013, do ponto de vista da preservação do nosso patrimônio cultural?

Valorizar o patrimônio é trabalhar empenhadamente na modernização da infraestrutura urbana e na conservação do acervo histórico dentro dos padrões técnicos, científicos e artísticos reconhecidos. É preciso ter profissionais preparados e competentes. Mas não se pode separar o desafio, como se patrimônio fosse algo distinto da cidade viva, das pressões do cotidiano, das exigências da dinâmica da realidade. É tudo uma coisa só, e creio que alcançamos uma resposta à altura de Ouro Preto porque nunca diferenciamos o investimento no restauro de uma igreja da aplicação de recursos no saneamento básico. Patrimônio exige qualidade de vida, porque não existe patrimônio sem aqueles que o animam, ou seja, a população ao qual pertence. Devemos pensar em patrimônio como origem, referência maior, pois assim o desenvolvimento levará em conta os valores da cultura, do meio ambiente e da cidadania.

Minas Gerais atualmente tem estreito intercâmbio cultural com a França. Como o senhor vê a relação mantida entre o país e o nosso estado?

Minas sempre dialogou bem com a França, desde o Iluminismo e a Inconfidência. Os franceses são os primeiros entre os estrangeiros que visitam Ouro Preto. E aos franceses agrada, sobretudo, a espantosa originalidade do barroco mineiro e da nossa cultura.

Profissionalmente, quais suas perspectivas depois de passar a prefeitura para o novo gestor?

Depois de oito anos fixado no dia a dia de Ouro Preto, penso em um ano sabático para viajar, ler e escrever, executar projetos culturais de pequeno porte. Esta é, pelo menos, a melhor opção. Na verdade, sempre gosto de esperar para ver.

 

 

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