Carimbó paraense é declarado patrimônio cultural brasileiro

foto: Agência Pará

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) aprovou o registro do Carimbó como patrimônio cultural do Brasil. A decisão, feita por unanimidade, saiu na manhã desta quinta-feira, 11, durante reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, em Brasília. O pedido de Registro foi apresentado pela Irmandade de Carimbó de São Benedito, Associação Cultural Japiim, Associação Cultural Raízes da Terra e Associação Cultural Uirapurú, com a anuência da comunidade.

A reunião do Conselho Consultivo foi acompanhada por um grupo de artistas do Pará, entre eles cinco mestres do carimbó de Marapanim, considerado o berço desse ritmo. “Esperei nove anos por esse momento. Só quem sabe o amor que eu tenho por essa cultura, consegue entender a emoção que eu sinto agora. A luta pelo reconhecimento nacional do carimbó é uma luta de todos os paraenses, que assim como eu acreditam na força e na beleza da nossa cultura popular”, afirma o mestre Manoel, líder do grupo Uirapuru, uma das associações de carimbó mais antigas da cidade.

Em um barracão de madeira, usado como espaço de oficinas de percussão e confecção de instrumentos típicos de carimbó, mestre Manoel ensina o amor ao ritmo paraense a dezenas de crianças da comunidade. Mesmo sem nenhum tipo de patrocínio, o local funciona como um grande polo de incentivo à cultura popular em Marapanim, considerada a terra do carimbó. “Só eu sei o quanto é difícil manter esse projeto de incentivo ao carimbó, mas a cada novo instrumento fabricado aqui no barracão, a cada nova criança que aprende a tocar percussão, a minha certeza de estar no caminho certo só aumenta”, conta o mestre, que compôs uma música especialmente para ser apresentada durante o evento, em Brasília.

Outro mestre de carimbó também celebra a decisão do IPHAN. Ex-integrante do grupo Uirapuru, mestre Luiz dos Santos, 72, é um dos maiores defensores do carimbó raiz de Marapanim. “Na teoria talvez não signifique muita coisa, mas na prática, o título de patrimônio cultural imaterial do país resgata a autoestima do mestre de carimbó e valoriza ainda mais o ritmo, que passará a ser respeitado e reconhecido em todo o país. Eu, que já estou há mais de 50 anos nesse meio, e já senti várias vezes a falta de reconhecimento pelo meu trabalho, sei que essa decisão vai reacender o amor do público pelo ritmo mais popular do Pará”, conta o idealizador do grupo “Os originais”.

O registro como patrimônio cultural imaterial brasileiro é um instrumento de reconhecimento concedido pelo governo federal a um determinado bem que seja reconhecido como referência cultural em todo o país. A reunião desta quinta-feira, em Brasília, finalizou o processo de registro de bem cultural iniciado oficialmente em 2008, resultado das discussões e mobilizações que grupos e mestres de carimbó realizaram no município de Santarém Novo, nordeste do estado, há nove anos, quando surgiu a campanha.

“Historicamente, Marapanim sempre teve forte ligação com o carimbó. E isso é muito nítido com a presença de diversos mestres e grupos de carimbó espalhados pelos quatro cantos da cidade. Por isso, estamos muito felizes com essa notícia e acreditamos piamente que o carimbó consegue preencher todos os requisitos exigidos para esse tipo de reconhecimento”, ressalta Ranilson Trindade, presidente da Associação Marapananiense de Agentes Multiplicadores de Turismo (Amatur) e coordenador do Festival de carimbó no município, realizado todo mês de agosto.

Filho de mestre Lucindo, apontado como um dos maiores divulgadores do carimbó de Marapanim, o músico Ranilson da Silva, 49, decidiu seguir as tradições herdadas em casa. Desde o ano passado, ele e diversos familiares de um dos maiores nomes do carimbó do estado decidiram criar o grupo “Raízes do Mestre Lucindo”. “A nossa ideia é homenagear um dos maiores defensores da cultura de resistência do Pará e não deixar que a obra do Lucindo seja apagada da nossa história”, explicou o músico.

“A semente do carimbó plantada por mestre Lucindo cresceu e deu frutos. E agora é a nossa vez de mostrar para o Brasil inteiro a importância desse ritmo contagiante. Para nós é uma felicidade e uma honra enormes poder trazer o nome dele não apenas no nosso grupo, mas no sangue da maioria dos integrantes”, declara o músico Edilson Aleixo, 51, o “Chopp”, sobrinho de Lucindo.

Criado há menos de um ano, o “Raízes do Mestre Lucindo” já teve música premiada em festival e aos poucos vem ocupando espaço junto aos maiores grupos de carimbó da região. “A nossa principal função é não deixar morrer o carimbó raiz, cantado e ensinado por mestre Lucindo”, conta o vocalista Anselmo Amaral, 31.

Há mais de dois séculos, o Carimbó mantém sua tradição em quase todas as regiões do Pará, e tem se reinventado constantemente. Seus instrumentos, sua dança e música são resultados da fusão das influências culturais indígena, negra e ibérica; e a memória coletiva dos mestres e seus descendentes tem mantido vivo estes aspectos. Entretanto, a principal característica está nas formas de organização e reprodução sociais em torno desse ritmo, no cotidiano de sociabilidade dos carimbozeiros, seja ele relativo ao dia-a-dia do trabalho ou das celebrações religiosas e seculares.

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