Novos bens registrados como Patrimônio Cultural Brasileiro

foto: Tetraktys / Wikipédia

Reunindo mestres do Maracatu e do Cavalo Marinho de Pernambuco e representantes do povo indígena Guarani, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, reunido na última quarta-feira, dia 3 de dezembro de 2014, aprovou o registro do Maracatu Nação, Maracatu Rural e Cavalo-Marinho, de Pernambuco, e da Tava, Lugar de Referência para o Povo Guarani, que se localiza no Sítio São Miguel das Missões (RS).

O Maracatu Nação, também conhecido como Maracatu de Baque Virado, com a grande maioria dos grupos concentrada nas comunidades de bairros periféricos da Região Metropolitana de Recife, é uma forma de expressão que apresenta um conjunto musical percussivo e um cortejo real, que sai às ruas para desfiles e apresentações durante o carnaval.  No cortejo estão personagens que acompanham a corte real, como o séquito do rei e da rainha do Maracatu Nação e outras figuras, entre elas as baianas, os orixás, as calungas – bonecas negras confeccionadas com madeira ou pano, consideradas ícone do fundamento religioso e marco identitário dos maracatus nação. Os grupos são compostos majoritariamente por negros e negras e carrega elementos essenciais para a memória, a identidade e a formação da população afro-brasileira.

A alegria e as cores dos maracatus e do cavalo-marinho revelam elementos essenciais para a memória, a identidade e formação da população afro-brasileira

O maracatu de baque solto, maracatu de orquestra, maracatu de trombone, maracatu de baque singelo ou Maracatu Rural ocorre durante as comemorações do Carnaval e da Páscoa. É composto por dança, música, poesia e está associado ao ciclo canavieiro da Zona da Mata, também tem apresentações na Região Metropolitana do Recife e outras localidades. Esta herança imaterial é revelada em gestos, performances, nos pantins de caboclos e dos arreiamás, na dança das baianas, nas loas dos mestres, nas indumentárias vestidas pelos folgazões. A expressão do Maracatu Baque Solto está tanto na sua musicalidade, um tipo de batuque ou baque solto, como por seus movimentos coreográficos e indumentária dos personagens e pela riqueza de seus versos de improviso. O aspecto sagrado/religioso/ritualístico é presente no folguedo durante todo o ano, durante os ensaios e sambadas, dando à manifestação a característica de ser o segredo do brinquedo, tão caro a seus detentores.

O Cavalo-Marinho é uma brincadeira popular envolvendo performances dramáticas, musicais e coreográficas é o que caracteriza o Cavalo-Marinho, apresentado durante o ciclo natalino. Ceus brincadores são, em geral, trabalhadores da Zona da Mata, mas também ecoa na região metropolitana de Recife e de João Pessoa (PB), entre outras localidades. No passado, era realizado nos engenhos de cana-de-açúcar e seu conhecimento é transmitido de forma oral. Durante a apresentação são representadas as cenas do cotidiano e do mundo do trabalho rural, com variado repertório musical, poesia, rituais, danças, linguagem corporal, personagens mascarados e bichos, como o boi e o cavalo (que dá nome à brincadeira). Contém ainda louvação ao Divino santo Rei do Oriente e possui momentos em que há culto à Jurema Sagrada.

O local representa a trajetória do povo Guarani, sendo um lugar onde é possível vivenciar o modo de ser dessa comunidade

A Tava, Lugar de Referência para o Povo Guarani se localiza no Sítio São Miguel das Missões (RS). Para o povo Guarani, a Tava é de suma importância por ser o local onde viveram seus antepassados. É também um lugar de referência por ser um espaço vivo que articula concepções relativas ao bem-viver, integra narrativas sobre a trajetória deste povo e é diariamente vivenciada como lugar de atividades diversas e de aprendizado para os jovens. Estar na Tava aciona dimensões estruturantes e afetivas na vida social e na memória dos Guarani-Mbyá, promovendo sentimentos de pertencimento e identidade. Enquanto patrimônio cultural, a Tava converge significados e sentidos atribuídos pelo povo indígena Guarani-Mbyá ao sítio histórico que abriga os remanescentes da antiga Redução Jesuítico-Guarani de São Miguel Arcanjo. O sítio histórico foi tombado pelo Iphan em 1938 e declarado patrimônio da humanidade, pela Unesco, em 1983

O acervo é considerado a maior coleção de brasiliana em mãos particulares

Uma das maiores coleções de origem particular de desenhos, pinturas, gravuras, litografias, mapas, álbuns e livros de viagem sobre o Brasil , a Coleção Geyer , acaba de se tornar Patrimônio Cultural do Brasil. O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, reunido em Brasília, na sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) avaliou o pedido e decidiu pelo tombamento.  Todo o conjunto foi doado ao do Museu Imperial de Petrópolis (RJ) pelo casal Maria Cecília e Paulo Fontainha Geyer, em 1999.

O precioso acervo de quase três mil peças, reunido ao longo de 40 anos na residência dos Geyer, inclui móveis, louças, objetos de decoração e prataria. O conjunto é considerado a maior coleção de brasiliana em mãos particulares. O casal doou também a Casa Geyer, localizada em um terreno de 12 mil metros quadrados no Cosme Velho, na cidade do Rio de Janeiro, que passará a ser uma extensão do Museu Imperial. A doação de natureza cultural rendeu ao casal Geyer o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, concedido pelo Iphan, em 1999. Muitas das peças da Coleção Geyer foram produzidas por artistas, cientistas, exploradores e viajantes estrangeiros que estiveram no país entre os séculos XVI e XIX.

O tombamento da Coleção Geyer mostra a importância histórica e artística desse acervo e, também, a dimensão pública do gesto do casal Geyer em doar ao povo brasileiro uma coleção particular de arte brasiliana do século XIX de significativo valor, não apenas cultural, mas também financeiro.

O tombamento de mais de duas mil peças do acervo do Museu de Arte e Ofício foi aprovado pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural

Para cada ofício há uma diversidade de ferramentas das quais o profissional pode lançar mão e assim obter meios para executar plenamente seu trabalho. Durante a histórica construção do Brasil, alguns instrumentos tornaram-se símbolos da importância dos ofícios para o desenvolvimento do país. Pensando em resgatar e proteger esses bens culturais ligados às classes trabalhadoras, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, reunido na sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília, aprovou o tombamento do Acervo do Museu de Artes e Ofícios, instalado na antiga Estação Ferroviária de Belo Horizonte (MG).

A sugestão de inscrição no livro do tombo decorre da preocupação em legitimar os modos de fazer e viver do homem comum e de toda sociedade brasileira. O historiador Adler Homero de Castro pontua que “os instrumentos podem ser considerados documentos históricos, exemplares de fazeres, técnica, arte e ofícios de grande importância nacional”. Os mais de 2,1 mil bens móveis que compõem o acervo do Museu de Artes e Ofícios, originados da coleção de Flávio e Ângela Gutierrez e doados inicialmente ao IPHAN, agora sob responsabilidade do IBRAM, estão organizados em sub coleções temáticas, como Jardim das Energias e variados ofícios: dos ambulantes, da cerâmica, da cozinha, da madeira, da mineração, da terra, da lapidação, do couro, do fio e do tecido, do fogo, do transporte e da proteção do viajante.

O Terreiro Zogbodo Male Bogun Seja Unde (Roça do Ventura) é considerado bem cultural de importância significativa para a história religiosa brasileira

A cultura negra muito contribui para formação do Patrimônio histórico, etnográfico e religioso brasileiro. OTerreiro Zogbodo Male Bogun Seja Unde, também conhecido como Roça do Ventura, localizado no município de Cachoeira (BA) é de grande importância na formação histórica do país e de grande influência nas expressões sagradas de matriz africana nas manifestações religiosas no país. A solicitação para o tombamento da casa de candomblé matricial de tradição jeje-mahi foi feita pela presidente da Sociedade Religiosa Zogbodo Male Bogun Seja Unde, Alaíde Augusta da Conceição, a veneranda vodunce Alaíde de Oyá, em dezembro de 2008. Estudos e avaliações realizadas por técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ressaltam que as ações de proteção à casa de candomblé são necessárias em função do risco provocado pela especulação imobiliária.

A importância e simbologia da Roça do Ventura no contexto da tradição Jeje para a história do candomblé no Brasil é amplamente destacada em vários estudos antropológicos e sociológicos que tratam da questão religiosa e no país. Entre os trabalhos estão Brancos e Pretos na Bahia (Estudo de contacto racial), escrito na cidade de Salvador entre os anos de 1935-1937 por Donald Pierson e publicado originariamente em 1942, com várias reedições; Afro-Brazilian Culture and Politics: Bahia, 1970s to 1990s, de Hendrik Kraay; Gaiaku Luiza e a Trajetória do Jeje-Mahi na Bahia, de Marcos Carvalho; A Formação do Candomblé: História e Ritual da Nação Jeje na Bahia, de Luis Nicolau Pares.

O Terreiro Zogbodo Male Bogun Seja Unde

A ocupação da Roça do Ventura teve início em 1858. Até hoje, o Terreiro Zogbodo Male Bogun Seja Unde é responsável pela preservação de umas das tradições religiosas de matriz africana, da liturgia do Candomblé de nação Jeje-Mahi originaria nos cultos às divindades chamadas Vodum. O Seja Unde tem fundamental importância na conformação da rede de terreiros do Recôncavo Baiano e sobretudo para a formação histórica do Candomblé como uma instituição religiosa.

O terreiro Zogbodo abrange um sitio natural e elementos edificados, além de árvores referenciais dos ritos Jeje, como as Casas de Hospedagem; Oiá (Altar); Peji (cerimonial), com salão, ronco e cozinha sagrada; Casa dos Antepassados; Fonte de Oxum; Poço; Ponte e Instalações Sanitárias. As Árvores Sagradas existentes no local são Nana, Tiriri, Ogum Eroquê, Avequité, Zogbo, Bessém, Ogum, Ajuzum, Lokó, Badé, Aqué e Parara. Também fazem parte do conjunto o Riacho Caquende – Odé e as margens Aziri e Avinagé.

fonte : Ascom / Iphan

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