Iphan discute a preservação do acervo arqueológico da Usina de Samuel, em Rondônia

Reunião-UHE-Samuel

Reunião técnica ocorreu nesta semana em Brasília e reuniu membros da Instituição e da Eletronorte. O objetivo é uma aproximação entre ciência e sociedade

Nesta semana, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), por meio da Superintendência em Rondônia, se reuniu no Centro Nacional de Arqueologia (CNA/IPHAN) em Brasília para propor a preservação do acervo arqueológico originado das pesquisas realizadas durante a construção da Usina Hidrelétrica de Samuel, localizada no município de Candeias do Jamari, em Rondônia.

Membros do Iphan e representantes da Eletronorte, incluindo o coordenador de pesquisa da época, o arqueólogo Eurico Theófilo Miller, discutiram os parâmetros necessários para o tratamento ideal do material arqueológico resgatado durante as pesquisas, que totaliza cerca de 200 mil fragmentos, alguns datados de aproximadamente 8 mil anos antes do presente.

Todo o patrimônio arqueológico proveniente da Usina de Samuel encontra-se alocado dentro do próprio empreendimento, local onde também existe uma pequena área “musealizada”, que contém uma amostra do material arqueológico identificado durante as escavações.

“Por se tratar de um patrimônio cultural do povo brasileiro, e, necessariamente, carecer de cuidados específicos para a sua conservação, a reunião entre Iphan e Eletronorte buscou meios para oportunizar a curadoria do acervo. Outro ponto discutido foi a retirada do material arqueológico das dependências da Usina, propiciando um contato mais facilitado entre pesquisadores, sociedade e o patrimônio arqueológico”, destacou o Superintendente do Iphan em Rondônia, Beto Bertagna.

Preservação da memória

De acordo com o arqueólogo do Iphan em Rondônia, Danilo Curado, a curadoria, seguida da retirada do acervo arqueológico das dependências da Usina de Samuel, vai proporcionar o real sentido do material arqueológico -“o de espelhar parte do passado humano”. “Por anos o acervo arqueológico foi mantido dentro da Usina de Samuel, causando um afastamento entre pesquisadores e o acervo. Desse modo, todo o potencial científico do material não fora utilizado, visto que existem dificuldades naturais em adentrar em usinas hidrelétricas, pois tratam-se de áreas de segurança. Havendo o tratamento de limpeza e catalogação e, posteriormente, o encaminhamento para alguma reserva técnica, o acervo arqueológico de Samuel retornará as suas funções científicas e, acima de tudo, sociais.”, sugere Curado.

Ainda segundo o arqueólogo do Iphan, a maior justificativa para a escavação arqueológica é o resgate da história por meio da cultura material. “Assim, um acervo arqueológico deve ser mantido próximo às comunidades e para elas. É preciso atingir o patamar social”, enfatiza.

Para o superintendente Beto Bertagna, o tratamento e a alocação do acervo arqueológico da Usina de Samuel em outra instituição representará um ganho sem igual para a sociedade científica e a comunidade em geral. “Um resgate arqueológico no âmbito do licenciamento ambiental justifica-se, inicialmente, por tratar-se de questões legais quanto ao patrimônio cultural brasileiro”, finaliza.

A Eletronorte se compromissou em contratar uma equipe especializada no tratamento de materiais arqueológicos, além de manter a consultoria constante do arqueólogo Eurico Miller, por acreditar que o pesquisador é uma “memória viva” de toda a pesquisa arqueológica realizada na Usina de Samuel na década de 1980. Em concomitância, a superintendência do IPHAN em Rondônia manterá ações de fiscalização sobre todas as atividades de curadoria, além de auxiliar em questões técnicas quando se apresentarem necessárias.

Histórico

Durante a construção da Usina de Samuel, instalada no município de Candeias do Jamarí/RO, ainda na década de 1980, foram efetivadas pesquisas intensivas de arqueologia, todas coordenadas pelo arqueólogo Eurico Theófilo Miller. Durante os anos de 1987 e 1988, Miller e sua equipe resgataram 101 sítios arqueológicos, totalizando um acervo de quase 200 mil artefatos arqueológicos.

IPHAN anuncia a criação da maior reserva técnica de arqueologia do norte do Brasil

Cerâmica Antropomórfica encontrada na usina de Jirau (Foto: Danilo Curado/IPHAN-RO)

Cerâmica Antropomórfica encontrada na usina de Jirau (Foto: Danilo Curado/IPHAN-RO)

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), através da Superintendência em Rondônia, anuncia a criação da maior reserva técnica de arqueologia, com cerca de 2.000 m² , do norte do Brasil. Após diversas tratativas que acontecem desde 2009, uma reunião na última semana definiu a construção da Reserva Técnica de Arqueologia na Universidade Federal de Rondônia (Unir).

A Reserva Técnica abrigará todo o acervo arqueológico encontrado nas usinas hidrelétricas de Santo Antônio e de Jirau. Seguindo a legislação sobre o patrimônio arqueológico, o IPHAN decidiu pela criação de uma instituição de guarda de material arqueológico dentro da Universidade Federal de Rondônia. A construção será custeada pelos consórcios das usinas, e na Reserva Técnica estará salvaguardado todo o acervo arqueológico resgatado nas áreas dos empreendimentos hidrelétricos. Para agilizar o processo de construção da Reserva Técnica, o grupo definiu que no próximo dia 24 de abril será assinado o Termo de Cooperação, oficializando a construção do local de guarda do patrimônio arqueológico dentro do campus da Universidade em Porto Velho, capital de Rondônia.

Para o arqueólogo do IPHAN-RO, Danilo Curado, a construção da Reserva Técnica será um grande avanço para a arqueologia no estado devido ao crescente número de sítios arqueológicos identificados em Rondônia nos últimos anos, e aos que ainda deverão ser localizados. Segundo ele, com esse edifício exclusivo para o acervo proveniente das pesquisas de arqueologia, haverá condições materiais possíveis para assegurar, com salubridade, a proteção destes bens da União e da Memória Nacional.

O superintendente do IPHAN-RO, Beto Bertagna, diz que a construção da Reserva Técnica representará a conclusão dos esforços do IPHAN. “Apesar de não constar em lei a obrigatoriedade da permanência exclusiva deste material arqueológico no próprio estado, o IPHAN sempre manteve o direcionamento de que o acervo identificado em Rondônia iria ficar em Rondônia. Essa questão respeita os princípios das cartas internacionais relativas ao patrimônio arqueológico, as quais indicam que o acervo proveniente das pesquisas arqueológicas devem permanecer o mais próximo possível de suas fontes, ou seja, dos sítios arqueológicos e, consequentemente, da comunidade”, finaliza Bertagna.